quarta-feira, 15 de junho de 2011

Tema 4 - Conflito e Bullying

Conceitos

O Bullying é uma palavra de origem Inglesa que se refere às atitudes agressivas, insultos, ameaças, humilhações, que ocorrem intencionalmente e repetidamente, sem razão aparente, e são adotadas por um ou mais estudantes contra outro. Estas situações são cada vez mais comuns em contexto escolar e as vítimas vivem geralmente aterrorizadas com os comportamentos manifestados pelos bullies, nome dado aos agressores. Face às permanentes humilhações, as vítimas, incapazes de se defender, geralmente isolam-se e vivem o sofrimento, a angústia e o medo sozinhas, o que pode conduzir a consequências bastante graves, inclusivamente homicídios ou mesmo o suicídio.

Dan Olweus define bullying como "uma conduta de perseguição física ou psicológica que um aluno realiza em relação a outro, o qual é escolhido como vítima de repetidos ataques. Esta acção negativa coloca as vítimas em posições das quais dificilmente conseguem sair pelos seus próprios meios" (1983, como citado em Musitu et al., 2011, p. 52).

O Bullying é caracterizado por Carvalhosa et al. (2001), de acordo com os seguintes critérios:

1. a intencionalidade do comportamento, isto é, o comportamento tem um objectivo que é provocar mal-estar e ganhar controlo sobre outra pessoa;

2. o comportamento é conduzido repetidamente e ao longo do tempo, ou seja, não ocorre ocasionalmente ou isoladamente, antes passa a ser crónico e regular;

3. um desequilíbrio de poder é encontrado no centro da dinâmica do bullying, em que normalmente os agressores vêem as suas vítimas como um alvo fácil.

4. Outro aspecto a destacar é que o comportamento agressivo não resulta de qualquer tipo de provocação ou ameaça prévia.

O que distingue, então, um conflito normal de uma situação de bullying?

Conflito normal

Bullying

- Os intervenientes explicam porque não estão de acordo, manifestando as suas razões.

- Intenção de fazer mal e falta de compaixão. O agressor encontra prazer em insultar, maltratar e dominar a sua vítima constantemente.

- A disputa é momentânea, não perdura no tempo.

- Intensidade e duração. A agressão não é pontual, prolonga-se por um longo período de tempo, até afectar gravemente a auto-estima do agredido.

- Desculpam-se e procuram soluções equilibradas, acordam um “empate”.

- A vulnerabilidade da vítima. É mais sensível a provocações do que os restantes colegas, não sabe defender-se adequadamente e tem características físicas e psicológicas que a predispõem à vitimação.

- Negoceiam para satisfazer as suas próprias necessidades.

- Falta de apoio. A criança sente-se só, abandonada e tem medo de contar o seu problema, pois teme represálias.

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- São capazes de ultrapassar a questão e esquecer o assunto

Fonte: Educar bem (2007:59)

Como a maior parte dos problemas se passam na escola, é nela que deve ser abordado este assunto e compete à comunidade educativa encontrar soluções que minimizem esta problemática. É neste sentido que Costa e Matos (2006:78) referem que é "imperioso criar um contexto em que a aprendizagem por parte dos adultos seja uma constante e em que eles, continuamente reflictam sobre a sua ação. Esta aprendizagem é essencial de forma a adquirir a visão sistémica dos problemas (...), e sem a qual não se podem operacionalizar estratégias de resolução de conflitos nas escolas".

Este trabalho nas escolas de desenvolvimento de estratégias de resolução de conflitos, através do desenvolvimento de características de resiliência nos jovens, será fundamental para a criação de factores de proteção das relações interpessoais que desenvolvem no dia-a-dia.

A maioria das situações ocorridas em contexto escolar enquadram-se na escalada para a violência que, como referem Costa e Matos (idem, ibidem) “ocorre no seio de relações interpessoais significativas, neste caso, inter-pares”. A escalada pode ser definida como uma “disfuncionalidade da comunicação que se caracteriza por, numa relação simétrica, haver uma luta pela definição dessa mesma relação (…), que vai gerando uma tensão progressivamente crescente” (ibidem, p. 23).

Sinais de alerta mais frequentes

Dos estudos internacionais relativos à temática ressalta um conjunto de sinais frequentemente evidenciados pelas vítimas de bullying em diferentes contextos e para os quais todos devemos estar atentos. Esses sinais são aqui elencados com base com base em Beane (2006:92).

Escola e trabalho Escolar:

1. Mudança súbita na assiduidade / no desempenho académico.

2. Assiduidade irregular

3. Perda de interesse no trabalho escolar / no desempenho académico / nos trabalhos de casa.

4. Declínio na qualidade do trabalho escolar / do desempenho académico.

5. Sucesso académico; parece ser “um menino do professor”.

6. Dificuldade em concentrar-se nas aulas; distrai-se com facilidade.

7. Vai para o intervalo mais tarde e regressa à sala mais cedo.

8. Tem uma dificuldade de aprendizagem.

9. Falta de interesse pelas actividades / eventos patrocinados pela escola.

10. Desiste de actividades de que gosta quando estas são promovidas pela escola.

Social

1. Solitário, retraído, isolado.

2. Competências sociais / interpessoais inexistentes ou fracas.

3. Sem amigos, ou com menos amigos do que os outros alunos, impopular, muitas vezes / sempre o último a ser escolhido para grupos ou equipas.

4. Falta de sentido de humor, usa um humor inapropriado.

5. Frequentemente alvo de troça, riem-se dele, provocam-no, importunam-no, rebaixam-no, e/ou chamam-lhe nomes, não se afirma a si mesmo.

6. Frequentemente maltratado, pontapeado e/ou agredido por outros alunos, não se defende.

7. Usa linguagem corporal de “vítima” – ombros descaídos, cabeça baixa, não olha as pessoas nos olhos, recua em relação aos interlocutores.

8. Apresenta uma diferença notória que o destaca dos seus colegas.

9. É oriundo de uma tradição racial, cultural, étnica e/ou religiosa, que o coloca em minoria em relação aos seus companheiros.

10. Prefere a companhia dos adultos durante o almoço ou em tempos livres.

11. Provoca, importuna, injuria e irrita os outros; não sabe quando deve parar.

12. Subitamente, começa a ser um bully com os seus companheiros.

Físico

1. Frequentemente “doente”.

2. Frequentes queixas de dores de cabeça, de estômago, e outras.

3. Arranhões, nódoas negras, roupas rasgadas ou outros pertences estragados, para os quais não há explicações óbvias.

4. Repentina gaguez ou tartamudez.

5. Tem uma deficiência física.

6. Apresenta uma diferença física que claramente o destaca dos seus pares – usa óculos, é obeso, aparência “esquisita”, caminha de uma forma “esquisita”, etc.

7. Alteração nos hábitos alimentares, perda súbita de apetite.

8. Desastrado, descoordenado, fraco em todos os desportos.

9. Mais pequeno do que os seus colegas.

10. Fisicamente mais fraco do que os seus colegas.

Emocional / Comportamental

1. Súbita alteração de humor ou de comportamento.

2. Passivo, tímido, calado, envergonhado, mal-humorado, isolado.

3. Nenhuma ou baixa autoconfiança/auto-estima.

4. Poucas ou nenhumas competências de assertividade.

5. Extremamente sensível, cauteloso, dependente de outros.

6. Nervoso, ansioso, preocupado, temeroso, inseguro.

7. Chora com facilidade e/ou com frequência, torna-se emocionalmente perturbado, tem oscilações extremas de humor.

8. Irascível, impulsivo, agressivo, tenta dominar (mas perde sempre).

9. Culpa-se a si mesmo pelos problemas/dificuldades.

10. Excessivamente preocupado com a sua segurança pessoal; dispende muito tempo e esforços pensando/preocupando-se com a sua segurança nos trajectos de ida e volta para a cantina, para o quarto de banho, para o cacifo, durante os intervalos, etc., evita certos locais da escola.

11. Fala sobre fugir de casa.

12. Fala sobre suicídio.

É extremamente importante que todos aqueles que diariamente interagem com a criança (professores, pais, técnicos, funcionários, etc.), ou mesmo ocasionalmente (médico de família) estejam atentos à manifestação sistemática destes sinais, para que se possa intervir tão precocemente quanto possível.

Bean, A. L. (2006). A Sala de Aula sem Bullying – Mais de 100 sugestões e estratégias para professores. Porto: Porto Editora.

Costa e Matos (2007). Abordagem Sistémica do Conflito. Lisboa: Universidade Aberta

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